quinta-feira, 9 de junho de 2016

[Resenha] ''Swing - Eu, Tu... Eles", autora Maria Silvério, Chiado Editora

Olá amigos, tudo bem? Parem tudo o que estão fazendo e venham analisar comigo um livro muito interessante que recebi esse mês através da parceria com a Chiado Editora. Muitos pensam ao olhar o material que o livro se trata de um romance hot, mas, na verdade, enganam-se. O livro é a resultância de dois anos e meio de pesquisas de Maria Silvério — jornalista e antropóloga nascida em Montes Claros, Minas Gerais — que através de pesquisas de campo e entrevistas exibe assuntos relacionados ao comportamento individual e coletivo de pessoas adeptas do swing [troca de casais]. Os aspectos da vida afetivo-sexual serão colocados em base para o leitor, que além disso também encontrará informações rentáveis a assuntos relacionados, a exemplo da sexualidade. Convido todos a conhecerem o livro ''Swing - Eu, Tu... Eles'' publicado pela parceira Chiado Editora em uma 2ª edição/2O14.


Título: Swing - Eu, Tu... Eles
Autor: Maria Silvério
Publicação: 2014
Editora: Chiado
Gênero: Sexualidade
Páginas: 284


Sinopse: O swing (troca de casais) é o ponto de partida para reflexões acerca de valores, comportamentos e modelos conjugais, sexuais e de gênero predominantes há séculos nas sociedades ocidentais, mas, atualmente, em crise profunda. O livro ''Swing: Eu, Tu… Eles'' é o resultado de dois anos e meio de pesquisa, trabalho de campo realizado em clubes de Swing em Portugal e entrevistas com casais adeptos da prática.Trata-se de um livro que mostra diferentes reflexões e fenômenos socioculturais que influenciam diretamente a nossa maneira de lidar com aspectos da vida afetivo-sexual.

Os casais apresentados nesse livro possuem perfis socioculturais e características pessoais interessantes para refletir acerca dos valores ocidentais de casamento, amor, sexualidade e relações de gênero. O grupo engloba pessoas com níveis educacionais e profissionais diversificados. 

A autora — ainda não conhecida por mim — ganhou a minha admiração precoce ao explicar que o seu verdadeiro objetivo não é argumentar a favor do que ou de quem mas sim demonstrar as perspectivas diversas e fenômenos socioculturais que intervem diretamente na forma em que o homem e a mulher encaram os aspectos fundamentais da vida. Ressalto que a sua pesquisa foi prolongada por longos dois anos e meio e o livro exerce um papel fundamental para o meio pedagógico. Em sua exploração a autora andou por clubes de swing em lugares como Lisboa e Rio de Janeiro e situa muito bem o leitor sobre as diferenças e semelhanças encontradas em ambas localidades, tanto em relação aos clubes quanto as pessoas que os frequentavam.

Mas Léo, do que você tá falando afinal? O que o livro aborda mesmo? O swing? O que é isso? Qual a sua finalidade? Quando surgiu? Bom, vamos lá...

Segundo as próprias explicações da autora, pode-se definir o swing como a prática em que casais heterossexuais estáveis mantêm relações sexuais com outros casais ou pessoas solteiras na companhia e com o consentimento do parceiro. O importante é frisar que se trata de uma prática de casais heterossexuais e lembrar que os clubes e festas voltadas para o tema atendem somente este tipo de público. O swing possibilita que os casais tenham uma variedade muito grande de práticas sexuais, destacando-se sempre o exibicionismo, o voyeurismo, o hard swing e sexo grupal, todos muito bem definidos na obra, que realmente está bem completinha. As pesquisas da autora valeram muito à pena, ela conseguiu montar um exemplar integralizado com muitas informações, estatísticas e referências, deixando muito claro que a visão e aceitação da prática — marginalizada pela sociedade — varia de caso para caso, de pessoa para pessoa. 

O livro está posto no gênero sexualidade que por sua vez está incluído na ciência da antropologia, ciência esta que tem como objetivo estudar o homem e a humanidade de uma forma geral envolvendo todas as suas evoluções; física, social e cultural. 

A autora revela seus passos durante a pesquisa. Desde as primeiras visitas a clubes de swing — demonstrando sua surpresa ao ver de fato as práticas desta ''modalidade de vida'' e o seu constrangimento em algumas abordagens feitas por casais swingers que por sua maioria das vezes, não se dava conta de que Maria Silvério estava ali apenas para estudar tais eventos —, até os seus momentos finais no aprofundamento das questões. À vista disso, em pouco tempo presenciou a primeira cena de sexo swing em sua pesquisa, descrevendo com perfeição o momento.
''Presenciei um fato interessante. Havia uma agitação [...] Uma mulher de aproximadamente 4O anos estava de pé fazendo sexo oral, alternadamente, em dois homens [...] um terceiro homem em pé masturbava-se enquanto observava a cena. Pouco depois ele posicionou-se atrás dela e a penetrou. Suas nádegas contraíam-se lentamente conforme o órgão genital adentrava a mulher que tinha idade para ser sua filha. Ele parecia estar em êxtase! [...]''
Pág. 29

Maria Silvério possui características boas com relação a escrita. Mostrou-se muito cautelosa em todo tempo e não expressou sua opinião sobre aceitar ou não tais comportamentos humanos, limitando-se apenas a informar ao seu público tudo o que ia descobrindo. A delicadeza com as palavras e a objetividade marcam a sua contemporaneidade de escrita num modelo rico e pedagógico. O livro é livre de qualquer censura mas nada é dito de maneira vulgar, entretanto alguns termos que alguns leitores poderão entender como pesados são usados no processo de desenvolvimento, o que é muito bom pois ajudou a valorizar o conteúdo, dando-o autenticidade. Termos utilizados pelos praticantes do swing também são esclarecidos, como gang bang, a prática de relação sexual de uma única mulher com mais de dois homens.

No que diz respeito ao sentimento da autora, ele deixou transparecer o seu ''medo'' no momento inicial de procura por clubes de swing. Por ser uma prática marginalizada pela sociedade esse ''medo'' é comum em ambas as partes, tanto nos principiantes que procuram adentrar nesse universo, quanto nos responsáveis pelos ambientes. Mas entendam, o swing não é uma prática ilegal, os clubes e festas para receber os clientes solteiros, casais, adeptos e visitantes, tem locais apropriados para isso, mas algumas vezes são encontrados somente em locais de difícil acesso. Em buscas pelo Google é possível encontrar sites e blogs que informem a localização desses ambientes, inclusive, há chats Online para que casais possam se conhecer pela internet antes, mas esse não era o objetivo da autora, que pretendia estar presente no universo para ter uma ideia mais ampla de como tudo era projetado. Um desses clubes foi localizado no Rio de Janeiro e serviu para que Maria Silvério entende-se melhor como era a diversificação dos ambientes e clientes adeptos ao swing. Ela é impecável em suas descrições. A sua pesquisa foi ampla e contorna também o biotipo dos frequentadores do lugar, considerando a classe social e o físico das mesmas.


''[...] A maior parte não compartilha com a família, amigos e colegas de trabalho que são adeptos da prática [...] A maioria não reproduzia o padrão de corpo sexualmente desejável tão valorizado [...]''
Págs. 47 e 87

''Swing - Eu, Tu... Eles'' é um livro muito informativo. ''Mas Léo, peraê, você tá me dizendo que esse livro que apoia o sexo com várias pessoas é instrutivo?''. O primeiro a se entender é que ''Eu, Tu.... Eles'' não é um livro que apoia a tese de sexo grupal. Digo novamente que o estudo aqui abrange o comportamento individual ou coletivo dos indivíduos de uma sociedade que ao longo do tempo ainda carrega um tabu referente aos diferentes aspectos da vida afetivo-sexual. POR ISSO, o valor sociocultural da obra. Maria Silvério ainda deixou muito claro que, diferente de outros meios que se encontra para a prática de sexo, o uso de preservativos é um preceito entre os swingers.


''[...] Ao longo da investigação observei que os swingers SEMPRE levam preservativos consigo. O sexo seguro é, de fato, uma norma neste universo.''
pág. 42

Na literatura, o swing — que por lema tem a frase "onde tudo é permitido e nada é obrigatório'' mas que não é uma prática desorganizada — não possui referências, contudo mostra esse universo pelos olhos dos próprios praticantes. Maria Silvério ainda explica que swing, casamento aberto e poliamor são coisas diferentes. O swing é considerado por muitos da sociedade como o adultério consentido. 


''[...] A prática teria surgido na Alemanha em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Os combates teriam provocado uma baixa na população masculina e muitos homens voltavam para casa deficientes ou impotentes. Por isso, as mulheres começaram a organizar festas para que elas pudessem ter prazer.''
Pág 72

O livro é rico ao extremo e representa muito mais do que essa simples análise. É verdade que algumas informações se repetem ao longo da base constituída pela autora mas o fato é que isso não foi um problema grave e serviu como reforço para tais informes. Os personagens  reais mas com nomes trocados por ela para manter o sigilo privativo — são parte fundamental para o livro e sua existência pois deles a autora extraí muitas informações relevantes para a sua pesquisa. Há trechos com diálogos representando seus depoimentos, isso é bem bacana por transmitir o embate de vários pontos de vista dos próprios praticantes do swing, que relatam suas acepções a respeito do sexo, ciúme, amor, conjugalidade, tabus, sexualidade e relacionamentos. 

A partir da metade do livro a sexualidade humana num geral — conjunto de comportamentos que concernem à satisfação da necessidade e do desejo sexual — passa a ser o ponto chave da leitura deixando um pouco de lado o que tange ao tema ''swing'' [troca de casais].

A maior parte da sociedade entende que aquele que pratica o swing é considerado um desviante, pois mesmo que hoje em dia a prática seja mais debatida nos meios sociais de comunicação como livros e filmes, é ainda uma subcultura estigmatizada e mal entendida. Alguns swingers já foram submetidos a estudos para detecção de desvios de comportamento e transtornos mentais mas nada foi constatado. Pesquisas com essa amplitude são muito importantes e necessárias para a sociedade num geral pois mostram com eficiência e sem nenhuma máscara os aspectos do comportamento humano [para e entre os] variados meios socioculturais. Acredito que tabus de uma sociedade advinda de gerações intolerantes e rígidas tendem a se quebrar diante dos progressos da humanidade. Com relação a sexualidade não será diferente. Cada indivíduo tem por si próprio questionamentos capazes de circundar seus próprios desejos por experiências que despertem novos meios de se ter prazer. A prática aqui  no swing — é totalmente pelo prazer, um envolvimento sexual e não emocional. Isto é, sem dúvida alguma, muito representativo. Os valores morais, éticos, sociais e culturais também são analisados na obra, afinal são assuntos interligados através do elo estabelecido com os padrões sociais referentes a sexualidade. A doutrina cristão afirma que qualquer prática que não seja objetivada para a procriação é prazer carnal e consequentemente, imoralidade. Dessa forma, a masturbação, a felação e sodomia sempre serão pecados mortais segundo os preceitos cristãos. Até o século XIX as práticas sexuais eram entendidas pela sociedade como boas, más ou pecaminosas, entretanto após esse período passou a ser interpretada como exibicionismo, fetiche e homossexualismo. Realmente, chega-se a conclusão precoce — antes mesmo do término da leitura do livro — que a nossa sociedade atual, mesmo com grupos mais modernizados reflexivamente e culturalmente, ainda cria rótulos para estruturar a vivência afetivo-sexual. Esses rótulos influenciam o comportamento sexual individual, mas acaba gerando também o oposto, estabelecendo o desejo e significância à experiências sexuais coletivas.

A leitura foi ótima, tranquila, prática, profunda e reflexiva. Não durou mais do que 3 horas. A diagramação é perfeita e o tamanho das letras é bom. Um livro com um forte paradigma informativo que pode ser recomendado para todos os leitores que tenham curiosidade sobre o assunto e para aqueles que querem acrescer seus conhecimentos antropológicos. Em suma, cumprimentos admiráveis para Maria Silvério por apresentar referências excelentes e uma escrita bastante descomplicada. Não é possível classificar os seus dois anos e meio de pesquisa — muito bem usados aqui — com menos de 5 estrelas. O livro complementou os meus variados tipos de leitura.




''[...] As pessoas não planejam ter para o resto da vida os mesmos aparelhos tecnológicos, o mesmo carro, e tampouco imaginam-se vestindo sempre a mesma roupa, ouvindo a mesma música, lendo o mesmo livro [...] Até mesmo para as coisas simples da vida somos incentivados a querer sempre mais [...] Mas para as coisas mais complexas da vida a nível pessoal — felicidade, estabilidade, compreensão, amor, carinho, satisfação sexual, etc e etc — continuamos a acreditar que encontraremos tudo em uma única pessoa [...]''


Deixo a todos vocês um forte abraço e fico no aguardo de seus comentários.

Valeu!

Até mais.


Comente com o Facebook:

5 comentários:

  1. Que livro interessante! O assunto que o mesmo aborda é sobre sexualidade. Pois bem, apesar de a humanidade estar em pleno século 21, o sexo ainda é tabu pra muita gente. Em algumas religiões o sexo antes do casamento é considerado pecado. Sexo sempre será um assunto polêmico, pois todos têm a sua própria verdade e o prazer é algo benéfico, todo Ser humano tem o direito de gozar de tal prática. Porém como cada um vai adquirir prazer com o sexo, aí é outra história. Aplausos para Maria Silvério pela obra, pelo que li na resenha, é um livro muito educativo, nos dias atuais o que a sociedade precisa, é de livros assim. A tua análise sobre a obra ficou perfeita. Forte abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Luciano, muito obrigado pelo comentário, ficar a par sobre o ponto de vista de cada um de vocês é sempre bom.

      Também sigo o mesmo pensamento, suas palavras complementam o texto.

      Valeeeeeu!

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Que livro interessante! E que resenha bem analisada e ventilada á luz da sabedoria. Sabemos que a nossa herança cultural vem de inúmeras gerações, que por sua vez nos condiciona a reagir depreciativamente em ralações aos que age de forma diferente da nossa. Com isso discriminamos e apontamos sem nos darmos conta de como as questões culturias de cada um influencia nas tomadas de decisões.
    Várias são as maneiras comportamentais que detectamos nas pessoas ao nosso redor, a exemplo do: agir, caminhar, comer , se relacionar sexualmente, é as diferenças linguística e tantos outros. E ao observarmos tais comportamentos tiramos conclusões baseado em nossa cultura, isso com certeza só atrapalha a comunicação e interação social com outro.
    Gostei da forma como a autora nos apresenta as informações , baseado na resenha ela nos apresenta pessoas que tem gosto diferenciado de muita gente, no entanto não significa que são a aberração da natureza como muitos pensam, na verdade são pessoas em busca de satisfação. E nessa hora o que mais importa é chegar lá. Com isso a autora se aparteia de seu próprio olhar sobreo assunto. Gosto disso onde o autor não impõe a sua ideia, mas deixa em aberto para que o leitor chegue a sua própria conclusão.
    Excelente resenha. Parabéns!! :-bd

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Geane, seu texto também é um excelente complemento para o texto. Quando você diz que acabamos apontando sem perceber, cita uma grande característica da sociedade de pré-julgamento sobre aquilo que desconhecem.

      Adorei o livro e a importância que ele tem é grandiosa.

      Beijos, valeeeeu!!!

      Excluir
:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd