sexta-feira, 17 de junho de 2016

''O Crânio de Rakam'', conto de Leonardo Otaciano, na íntegra


Título: O Crânio de Rakam
Autor: Leonardo Otaciano
Publicação: maio de 2016
Editora: Independente
Gênero: Conto, terror/horror
Páginas: -

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Brasil, 1998

***

Eu não sabia que tinha aquele dom. O cara de preto que me viu no trem, me contou. Eu ainda era moleque mas consigo me recordar daquele insigne e acinzentado dia.
Havia um burburinho no vagão ao lado. Uma pessoa estava caída ao centro da composição. Um grupinho se formou bem antes de eu me aproximar. Na época, os onze anos e a ausência do medo me impulsionavam a querer descobrir todas as merdas possíveis.
Intrometido, passei entre as pernas masculinas que se amontoavam uma próxima à outra e tentei chegar até a pessoa caída. O cheiro fétido de suor e carne podre tomavam conta da composição. O suor era dos mendigos, que usavam os vagões como quartos, deitando-se sobre os assentos e impregnando o local público com o cheiro insuportável de seus corpos sujos e apodrecidos.
O corpo estava lá. Finalmente o havia vislumbrado. Um agrado descontrolado invadiu-me. O interior da minha boca inundou-se de saliva rapidamente, e o cuspo de pouco em pouco começava a descer pelas laterais dos lábios.
Era uma mulher. Estava morta. A matiz acarminada do líquido ali presente me causou um leve sorriso ao canto da minha grande boca. Sua matéria era banhada por uma porção vultosa de sangue que me deixou completamente excitado. Eu queria deitar sobre aquela mulher e sentir o rubro de seu líquido tocar a minha pele. Eu poderia ficar lá por muitos minutos seguidos, rolando de um lado ao outro por cima dela para provar também a sua carne.
Do lado oposto da rodinha criada pelos curiosos havia um homem. Estava revestido por vestimentas negras. Usava luvas e um chapéu comprido. O rosto era pálido mas demonstrava felicidade. Estava sempre a sorrir e seus olhos extasiavam enquanto encaravam os meus. Parecia o bom e velho Joker cruel de 1944, aquele que eu adorava encontrar nas revistas em quadrinhos que narravam a vida do personagem na afamada Gotham City.
Durante os sussurros de espanto dos vermes humanos tão normais e ridículos, a figura que eu impelia ao encarar, desapareceu. Afirmo a você que nunca gostei do que era normal. A normalidade para mim soava como algo tosco demais para a minha mente tão qualificada e o meu intelecto genial, que começava a moldurar-se.
Agora eu só tinha olhos para o cara de negro. Eu precisava encontrá-lo. Algo nele me atraiu como um imã. O seu olhar era tão penetrante que ofuscou a porra do ambiente reproduzindo uma cegueira imensurável em mim. 
Desviei-me, de imediato, de duas velhas à minha frente. Em seguida, passei por uma mulher que cobria com as mãos os olhos do seu filho, o impedindo ao menos de gravar em sua mente a cena maravilhosa da matéria da dama conflitada ao chão. Depois, saindo do vagão e deslocando-me a estação velha, erma e poeirenta o encontrei na saída da bilheteria. Ele estava a me esperar. Uniu-se à fraca iluminação da parte sul das cabines e se exibiu como parte da atmosfera obscura. 
— Olá, eu estava esperando por você, Bocão.
Ele sabia o meu nome, o que não poderia ser surpresa. Metade do colégio me chamava assim. 
— Cara, quem é você? — perguntei, engolindo um sorvo de saliva logo em seguida.
— Vejo que você está admirado, não é mesmo?
— Não, claro que não. Nem um pouco, sabia? — tentei me fazer de durão. Num lapso, a coragem sucumbiu.
— O que pensa sobre mim? — ele sentou-se sob a lixeira da estação.
Por um minuto tive a curiosidade de olhar o panorama da velha estação 53. Estava tudo vazio, e eu sabia daquilo, mas, apesar de tanto querer estar com o cara desconhecido, uns calafrios me deixaram trêmulo por alguns instantes.
— Sei lá! Acho que vou embora.
— Sim, você vai, mas antes... — uma cortina misteriosa apareceu atrás do homem — escolha um desses copos. Quero fazer um truque de ilusionismo com você — ele virou-se, abriu a cortina e, de súbito, uma banca de madeira brilhosa surgiu, sustentando sobre ela três copos e um objeto esquisito.
— O quê? Como assim um truque? O que eu ganho com isso, cara?
— Primeiro, quero que coloque as suas mãozinhas sobre a mesa e diga o seu maior desejo.
Eu hesitei. Estava me sentindo muito atraído por todas as ações do Joker negro mas não achava legal me doar tão facilmente.
— Ei cara, antes me responda uma coisa. Você é mágico? E o que é essa coisa aí na mesa?
No instante, ele deu dois passos à frente e encarou-me com uma expressão perversa que não me dava medo, e sim, vontade de ser igual. Meu pescoço dobrou e o olhar subiu ao acompanhar o semblante do cara.
— Eu sou um ilusionista que realiza desejos. Este é o meu amuleto, preciso dele para ganhar... — ele deu leves gargalhadas antes de continuar — para realizar os desejos. Agora venha, não finja que não quer. Se você veio até aqui é por que quer alguma coisa, não é mesmo?
— É — respondi por impulso. — Está bem, eu quero muito ser como você. Um mágico que realiza desejos. Mas quero realizar meus próprios desejos também. Tem coisas que quero muito — com as mãos na mesa e em pleno êxtase, respondi.
O homem colocou o objeto pequeno, cor-de-vinho, de forma arredondada semelhante a um crânio minúsculo, dentro de um dos copos o jogando emborcado na mesa e o misturando aos outros numa velocidade alucinadora. 
— Me fale uma dessas coisas que você tanto quer, Bocão.
— Ah cara, quero que um daqueles merdas do colégio me pague por tudo o que me faz. Odeio ele. Quero que Richard suma. Se eu pudesse, eu mesmo o mataria. 
A gargalhada dessa vez foi profunda. O Joker negro notou a minha revolta e parecia conhecer-me muito bem.
— Vamos, você já pode escolher um dos copos. Mas lembre-se, o seu desejo só será realizado se você acertar o copo que guarda o amuleto.
Como um demônio mancebo, estiquei o braço direito e pus a mão sobre o copo do meio.
— É este — gritei.
Uma nova gargalhada ecoou. 
— Muito bem, Bocão, você acertou. Abra o copo e pegue o amuleto, ele é seu.
— Mas é só isso? É só isso que acontece? Eu pego o amuleto e vou pra casa?
— Sim, é só isso. Mas agora você já é como eu. Você tem o dom com você. Será um exímio ilusionista e poderá realizar todos os seus desejos.
Fiquei por alguns segundos a observar o objeto esquisito em minha mão. Olhando bem de perto se tornava mais horroroso ainda, parecia ter algumas letras diferentes talhadas em sua superfície. O centro era transparente e emitia um fraco brilho. O avermelhado reluzia quando a luz o tocava e ficava mais forte quando eu o espremia. Eu sentia uma sensação arrepiante ao fitá-la, mas, ao mesmo tempo, parecia que aquele artefato sinistro me dava poderes. Eu me sentia mais forte, intocável, cheio de genialidade e com muita vontade de sentir a vivência jorrando para fora de algumas pessoas. O inquieto jorro da seiva humana sendo segregado por cavidades feitas por mim.

***

Quando desviei o olhar do objeto em minhas mãos, o mágico e seus acessórios haviam sumido. Eu encontrava-me ainda, dentro do trem, olhando para o tumulto que se formava após o estranho assassinato da mulher no vagão ao lado. Não tive medo, ao contrário, sorri de lado e invejei o chão da composição, que tranquilamente se deliciava ao tocar o licor humano.
O desgraçado homem de preto estava entre os curiosos, de costas para mim. Em meu esquecimento ligeiro, virou-se, acenou e se perdeu entre o corredor do vagão.
O bolso do meu casaco guardava o tal objeto que ganhei na ilusória ou repentina noite. Se chamava o Crânio de Rakam. As letras se formavam uma vez ou outra quando eu o observava. Acredito que tenha sido trago pelo ilusionista com uma finalidade: rejuvenescer e aprimorar a si próprio. Tempos depois, por meio de sonos que adentravam a minha realidade, fui compreendendo tudo a respeito do pequeno artefato.
Depois da mágica, confesso que não me tornei igual ao velho Joker negro. Decerto, acredito que o enigmático só sabia fazer magias. Poderia ser tachado de bruxo, o filho da puta. Eu fui além disso e, admito, me declaro o seu herdeiro. Um de seus truques me tornou pior e mais cruel que o próprio Diabo.
Aos doze, entusiasmado e usufruindo de todo o ódio que saía do Crânio de Rakam, amarrei as mãos e pernas de Richard no acampamento escolar e com uma faca de lâmina afiada e luzente, cortei seu abdome com avidez retirando em seguida, primeiramente seu estômago e, posteriormente, seus rins. Para que ninguém o ouvisse berrando, obstrui antes a fenda de sua boca com uma de suas meias e a lacei com fita adesiva, entrecruzando diversas vezes por sua cabeça. Durante o meu ato, os olhos de Richard ficaram vermelhos como se estivesse puxando um brown. Ele tentou gritar algumas vezes, mas depois de sucessivas gemidas, experimentou um desmaio eterno. Banhei-me em seu sangue e me deliciei ao sentir a sua pele tocando a minha quando o abracei. É verdade, Richard me atormentou por muito tempo no colégio mas, no fim, o meu desejo se realizou. Eu toquei a sua superfície lisa e macia. Meu ódio não existia por razão das perturbações, e sim por ele nunca ter me dado a chance de experimentá-lo desse jeito. Richard era mesmo um bobinho.
Aos quinze, trapaceando com o sobrenatural, invadi a mente de Melissa, experimentei seus seios nus, provei de todo o seu corpo e só então pude ouvi-la gritando de prazer e pavor enquanto sua alma regredia para o antro dos pecados. Mas entre os incontáveis desejos que realizei a mim mesmo, sentir o suor de papai misturado ao seu licor vivo e condensado fora um dos mais excitantes. Naquela noite eu me senti melhor que um excelso drogado. Agora não preciso mais ouvi-lo gritar: "— Eu te odeio e vou te matar, menino esquisito. Doente mental! Bichinha!". O papai me irritava. Minhas roupas nunca foram femininas mas sempre foi óbvio o meu gosto por coloridos. Coloridos como os dos palhaços.
Agora, mesmo depois de tantos anos, brinco com criancinhas inocentes, adolescentes atraentes e velhas e velhos estúpidos enquanto tateio o Crânio de Rakam. É fácil atrair qualquer um com essa aparência psicodélica. Sinto-me ainda jovem. Sei que sou cruel e a cada dia não me reconheço mais.
Afinal, quem sou eu?



Crânio de Rakam: mercadoria macabra muito cobiçada por magos e ilusionistas da América do Sul. De posse do objeto, o indivíduo obtém a realização de seus desejos mais cruéis. Pode também apoderar-se da mente de pessoas com as quais teve contato recente.

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8 comentários:

  1. Muito bom o conto Leonardo! Pros fãs do gênero é certeza de gostarem. Parabéns e um forte abraço!

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    1. Valeu Luciano, eu agradeço o apoio de todos vocês.

      Abraço.

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  2. Uau! Sinistro. Precisa me ensinar como se escreve contos de terror assim tão bem. Arrasou Léo. Parabéns!

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    1. Grato Érica.

      Legal que tenha gostado. Obrigado minha querida.

      Beijos

      :)

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  3. Uauuu!! Sinistro e muito sombrio. Confesso que ao ler o conto senti vontade de ler mais. Você escreve muito bem. E assim, é uma estória macabra, no entanto muito envolvente.
    É importante lembrar que as história de terror sempre esteve presente no imaginário do ser humano . Interessante mesmo é o que o horror provoca no emocional e psicológico do leitor . Como diria o escritor do gênero : “ A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido”. Esse sentimento que nos invade quando assistimos ou lemos algo que nos aterroriza, é de certa forma um prazer. Feliz de quem consegue despertar tal emoção , com certeza é muito bom. E você de certa forma conseguiu despertar em mim tal emoção.
    A ideia de poder ler algo e sentir esse prazer não tem preço. Um bom escrito de fato ocorre quando consegue expressar de forma convincente e fazer do susto corriqueiro uma nova maneira, de senti-lo .
    Belo conto moço, parabéns!!

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    1. Se você disse, tá dito. Grato por suas considerações e elogio. Escrever terror pra mim é algo muito natural, me familiarizo desde cedo.

      É importante receber o apreço e sinceridade de vocês. Obrigado.

      Beijos =D

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd