sábado, 7 de maio de 2016

Resenhando: "Miqueias, O Profeta", livro de Voguiana M. Francis, publicação da Chiado Editora

Olá, escrevo hoje uma resenha reflexiva sobre o livro ''Miqueias, O Profeta'' escrito pela autora angolana Voguiana M. Francis. recebi o livro através da parceria com a Chiado Editora e alerto que a minha leitura foi excessivamente instrutiva. O livro me conduziu facilmente para o conhecimento. A obra é muito criteriosa, seu nível técnico e profissional é muito elevado. Mesclando um enredo fictício mas com uma forte dimensão de realidade  para os africanos, Voguiana M. Francis teve idoneidade para inferir perfeitamente ideais múltiplos num universo eivado que se opõe a designação da obra. «Ao contemplar tanta calamidade no mundo, em que milhares de pessoas caem mortas que nem tordos, temos que admitir que o sofrimento é parte do ser humano e eu não fujo à regra. Vou encontrar alguma solução para dar rumo à minha vida. Quem sabe? Se encontrarei refúgio na escrita, na poesia...? Meu Deus, como nos fizeste tão criativos!»


Título: MIQUEIAS, O PROFETA
Autor: Voguiana M. Francis
Publicação: 2013
Editora: Chiado
Gênero: Romance, Ficção
Páginas: 320

Sinopse: Miqueias, o Profeta, é um livro feito de caixinhas surpresa que se vão abrindo, de um modo inesperado, trazendo personagens, acontecimentos, tramas, simbologias e fazendo com que o leitor vá caminhando de capítulo em capítulo, fazendo e refazendo as estórias que as personagens, as suas vidas, as suas escolhas, vão deixando que se abram, à medida de um enredo que cresce e nos faz querer acompanhar cada percurso. Miqueias é um livro onde se escondem matrioskas, com segredos que se vão descobrindo enquanto vamos tirando, de dentro de cada uma, por ordem decrescente, personagens, alter-egos, valores morais, desejos, compromissos, história, religião, comportamentos, desconstruindo a vida, e construindo a trama que a todos vai unir, como peças essenciais no cenário do enredo. Miqueias é um livro de procura, onde o sentido das coisas se afirma no jogo de transparências entre o visível e o não visível, e onde se procura desocultar a Verdade como momento absoluto a celebrar o Fim. Miqueias é um livro de leitura apetecida, vivida no encadear constante de afetos e caminhos que as personagens, como nós, transportam no enredo e na vida.

Míriam Aço
(LUSIS/SISTEF Diretora de Educação)



O impulso propiciado pelos assuntos que se confrontam no contexto geral, interferem diretamente nos ideais e pensamentos, e causa hesitações e certezas em razão das diversas transformações do mundo. Andando com passos firmes em uma novela de expectativas vastas, descortinando segredos das vidas de muitas pessoalidades causadoras de desfechos inesperados, os argumentos entrelaçados em imbróglios surtem efeitos drásticos nos conhecimentos históricos e humanistas. Este mesmo conteúdo humanista formador de arquétipos clementes ou ordinários são capazes de engrandecer pessoas. O informativo poderoso da realidade nua e, às vezes, disfarçada como artigos do cotidiano, ditam o seguimento dos núcleos envolvidos em ''Miqueias, O Profeta''. O mal é representado através dos problemas sociáveis e individuais fixando fachadas soberbas. A interpretação é uma conquista, um descobrimento da singela e entorpecente beleza humana, mesmo em torno do desespero e sofridão. O cálamo define-se pelo formato clássico e charmoso similar aos grandes e inesquecíveis nomes da literatura brasileira ou portuguesa. 

Voguiana M. Francis usou diversas vezes, trechos dos poemas do universal poeta português Fernando de Pessoa no início de seus capítulos. Demonstrou-se uma apaixonada pelo escritor.

Notas verbalizadas de valores e conduta humana vagueiam na riqueza de expressão. ''Miqueias, O Profeta'', intenso, fundamentado, versado, circunstancial. Repto? Convicção? Humildade? Um ar presumido daquele que quer ser como Deus? Afinal, profeta por quê? Anunciador de quê? Do humanismo? Humanismo, movimento intelectual difundido na Europa durante a Renascença e inspirado na civilização greco-romana, que valorizava um saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição humana. Conjunto de doutrinas fundamentadas de maneira precípua nos interesses, potencialidades e faculdades do ser humano, sublinhando sua capacidade para a criação e transformação da realidade natural e social, e seu livre-arbítrio diante de pretensos poderes transcendentes, ou de condicionamentos naturais e históricos. ''Miqueias, O Profeta'', um guardador de segredos, sem identidade, desventrador de mistérios, procurador da verdade. Um revolucionista de ideais de libertação e igualdade. «... O homem vestido de negro. Na realidade, quem seria aquele homem? Um político? Só um iluminado poderia prestar tais informações. Falar demais dentro do sistema tornava-se perigoso. A mensagem explicava o que não podia ser explícito! [...] Trabalhamos em prol da humanidade, na defesa dos nossos direitos... Dos direitos humanos. Decidimos lutar para criar um mundo mais confortável e mais agradável. É este o nosso objetivo para que, no futuro, os nossos filhos vivam num mundo mais humano. Um dia saberão mais detalhes..."» 

Há muitas frases de efeito moral no livro. Isso o torna ainda mais atraente e enriquecedor.

O relator de ''Miqueias'', um investigador, a testemunha dos passos de vidas figuradas e desprovidas de tantos fundamentos, suscitados por ocorrências sub-humanas mas que não se divergem de meras circunstâncias da vida. Os envolvidos encontram nas ocorrências, momentos agradáveis e nostálgicos. «... Voltavam as minhas meninas com os baldes cheios de água na cabeça por cima de rodilhas feitas de pano! Os rapazes, para se fazerem mais fortes, traziam-nos à mão. Estes até vinham curvados e arreados! Tal era a força que faziam! "Mas rodilha é que não! Os homens são machos! Rodilhas eram só para as mulheres!" Diziam, tentando fazer a voz mais grossa do que as que tinham.» 

Heróis que insinuam através de seus nomes sentidos coesos para a sociedade, como desadornadas metáforas. Maria de Jesus, batalhadora, confiante, idealizadora, claramente ''de Jesus''. À amostra da crença, com paciência por dias melhores. Filhos com deformação genética que a vida impôs; e Jonathan, o marido dado por Deus, descompromissado, mulherengo, sinônimo fiel da sociedade malformada. O próximo denomina-se  Edmundo, o Mundo para os íntimos, dono das noites, sedutor das mentes notívagas, um oferecedor. Aos mundanos, dá-lhes então, os lances do mundo, acha-se a perdição. A seguinte é a Luz da Fé, doutora que elucida aos indivíduos moribundos a obtenção e retenção de sentimentos e recursos invisíveis como meio de superação e aperfeiçoamento mental. Uma ''Luz'' que é brilhante, uma ''Fé'' que traz coragem para enfrentar as dores do mundo de uma sociedade castigada.

Egos, máscaras, mudanças. Pessoas em constantes evoluções de caráter, pensamento e conhecimento, gozando dos dissabores da vida e os sabores do fim. «Vivo em sociedade. As relações humanas poderão ser desumanas? NÃO! Apercebo-me de que o discernimento é uma virtude a ser desenvolvida no meu dia-a-dia. A escravatura é um mal apenas de um passado histórico distante? Infelizmente, não. Vai-se apresentando de uma forma mais requintada. Mulheres e crianças são engolidas por um covil sem fundo.»

Imagem meramente ilustrativa.

O quadro histórico anuncia o regime político em solo africano, relembrado e reforçado pela boca de Francisco, homem conceituado, franco e de ideologia livre. «Era nitidamente uma manifestação contra o regime político. Ouvia-se gritar horrores na rua. Queriam obrigar as pessoas todas a aderir à manifestação [...] Estavam traumatizados com a guerra.»

''Miqueias, O Profeta'', um romance crítico à quebra do monopólio social africano, de valores errôneos e regras que desfavorecem os mais fracos, como na conjuração baiana, movimento revolucionário de libertação. Que se quebre as correntes, liberte a sociedade do sofrimento contínuo e que lute por igualdade, respeitos morais, religiosos, raciais e econômicos. «... Depois de prometerem mundos e fundos, vão-se escapando ao maior trabalho, depois aparecem com o dinheiro, pensando que basta doar meia dúzia de tostões e ficam donas do terreiro!» 

A capa da obra, apesar de não apresentar uma estética tão bela, representa perfeitamente o conteúdo apresentado pela autora.

A religião no romance, foca a fé e reaviva o saber do ser em sua perdição. Odes tocantes suavizam os momentos finais das vidas apresentadas. Na obscuridade de pensamentos desconexos, um homem, vestido de negro, surge das trevas da noite densa, adentrando na negrura das chuvas torrenciais. Não se trata de uma ESTÓRIA, mas sim de HISTÓRIAS DE VIDAS SILENCIOSAS E SILENCIADAS NAS EMOÇÕES DA DOR. O desenrolar na minúscula cidade do interior da África perdida na encruzilhada sinistra da montanha do tempo. Por lá, ouve-se em gritos silenciosos, pungentes memórias e confissões, com conclusões surpreendentes. Contudo, assim como na vida, falhanços levantam-se em instantes inesperados. Parte da estrutura se embaraça no caminhar e Miqueias, o profeta — personagem que após análise, entende-se não ser um protagonista — mostra-se pouquíssimas vezes. Lembra-se, aqui, que o romance desencapotado é pela luta e sobrevivência, pela vida em sua forma mais venusta. ''Miqueias, O Profeta'' não é de fácil entendimento, exige muita atenção e perspicácia, apontado não unicamente para já definidos eruditos leitores mas também para aqueles que ainda correm loucamente atrás de muitas erudições. Por isso, ficam aqui gravadas essas letras. « As palavras voam, as coisas escritas permanecem.»


Parabéns a Chiado Editora por mais esta beleza de obra. A autora realmente é muito sábia. Com a leitura, ganhei ânimo e me sinto um ser racional capaz de equilibrar a emoção e a mente. Entendo mais profundamente que a perseverança é fundamental na vida do ser humano e com ela cada um é capaz de vencer os seus medos. Como dito, há partes do enredo que ficaram confusas e por isso classifico com 4 estrelas ''Miqueias, O Profeta''.




Espero que tenham gostado da resenha do livro. Aguardo o comentário de todos e deixo a vocês um forte abraço. 

Fiquem atentos, em breve, mais coisas legais aqui no #ML.

Valeu!


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9 comentários:

  1. Sua resenha foi impecável como sempre. Você passou o que o livro expressa. Enquanto descrição de problemas sofridos na África, creio que a autora foi feliz, porém na questão ligação com o Profeta Miqueias, Profetismo e elementos bíblicos careceu de algo mais forte.
    Lembre-se de que fui estudante de teologia e por acaso, Miqueias foi um dos profetas mais estudados por mim. Cheguei a defender uma pequena tese sobre sua atuação profética.
    Confesso que mesmo vendo uma relação desfavorável com o profeta, pretendo ler a obra e tirar minhas conclusões. Pode ser que lendo integralmente o livro, possa ter minha opinião mudada.
    A minha análise do profeta foi pautada nos textos em hebraico. E foi bem interessante!
    Futuramente, tendo lido a obra, poderei dar uma opinião mais segura sobre o assunto.
    Abraços e parabéns pela sua resenha.
    Deixo bem claro que minha crítica não está relacionada a sua escrita como resenhista. Reafirmo que você transmitiu muito bem o conteúdo do livro, porém tem a questão do Profetismo e as relações bíblicas feitas pela autora que não foram bem elaboradas.
    Abraços!

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    1. Valeu Fernando, livro riquíssimo, indico.

      Abraços e obrigado por sua opinião, sempre muito importante.

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  2. Leonardo a resenha escrita por você está perfeita. Sabemos que a vida na maioria dos países africanos não é nada fácil! Além do mais Teologia é até certo ponto um estudo muito complexo, sendo assim falar de profetismo e as relações bíblicas é sempre complicado. O que acontece é que se não for bem elaboradas o livro torna-se bastante contraditório. Forte abraço

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    1. Valeu Luciano, é verdade. Mas o livro é muito bom e necessário para o enriquecimento do leitor.

      Forte abraço e obrigado.

      :)

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  3. Peguei-me legal, numa aula de história e antropologia filosófica. Concordo como o resenhista que o livro não é de fácil entendimento, mas que de certa forma nos convida para uma boa leitura, ao menos para mim surge um convite extraordinário. Quanto à questão do Profeta, o que sentir de fato é que condiz de fato com o contexto histórico narrado, pois, o olhar de quem escreve, escreve com o olhar inquisidor, seguindo de resposta que o leitor responderá no segui da história. Apresentando-nos personagens, que apesar de ter seus nomes vinculados ao Sagrado, ainda assim, questionamentos surge a suas pessoas, tipo o que significou a existência desse ser, o que levou a tais ações. É mostrar o que de fato o que parece ser não o é. Tendo em vista que esse livro profético do antigo testamento, se apresenta como om livro da condenação dos ricos por aproveitarem dos pobres , denunciando aqueles que por sua vez, usava de má fé, sendo o profeta o maior porta-vozes da justiça. O livro está sim bem colocado e bem escrito, pois, acredito que diante de questionamentos, não podemos crer, tão somente do que nos diz a História contada. Precisamos questionar até que ponto, se faz bom uso de tais estórias contadas. E o livro nos veio com esse intuito, provocar, mesmo que seja o Sagrado. Belíssima resenha moço! Parabéns!!!

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  4. Uau! Valeu por sua exímia opinião. Adorei! É bom saber que temos leitores e seguidores tão sábios quanto você e os demais que aqui comentaram.

    Os comentários de vocês foram um complemento para a resenha. Obrigado!

    Geh, sua presença é sempre importante, grato.

    Beijos.

    :-bd

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  5. Resenha espetacular Léo perfeita parabéns!!!

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  6. Resenha espetacular Léo perfeita parabéns!!!

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  7. Valeu minha querida. Obrigado pelo elogio.

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd