quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Post especial: Feliz Natal, amigos literários


Olá, boa noite. Eu e Matheuz Silva (convidado mais do que especial da noite) estamos aqui para desejar aos amigos leitores, parceiros e seguidores do Marcas Literárias, um Natal abençoado repleto de maravilhosas surpresas. Que a vida de cada um se encha de alegria junto aos amigos e familiares e o brilho do espírito natalino resplandeça em suas vidas. 

Matheuz Silva, filho do autor Leonardo, vestido de Papai Noel para festejar o dia especial.

Para comemorar junto a você, traremos hoje um capítulo do livro ''Gabriel Pimenta'', intitulado de ''Coisas de um Natal abençoado''. Na obra, Gabriel chega no dia de Natal esperando um presente especial de sua mãe. E aí, o que será que acontece? Que tal vermos logo? Então, é isso aí, vamos à leitura.

Coisas de um Natal abençoado

Capítulo do livro ''Gabriel, a Ladeira, o Pimenta''
Gênero: Infanto juvenil
Ano: 2014

Os dias se passaram, o calor não se foi e todas as minhas encrencas deram uma pequena pausa. Pareciam que estavam dormindo. Nada de festas, nada de palhaços, nada de ponteiros de relógios que atrasavam o meu dia, quem dormia era eu...

— Acorda Gabriel, daqui a pouco o seu tio tá aqui.

Meu tio estava chegando. Ah, eu gosto de lembrar dele. O cara mais bacana que eu conhecia se chamava Luiz, assim mesmo, com a letra Z.

Ele era novo, menos de trinta mas sabia muitas coisas sobre tudo. Talvez eu esteja exagerando, é melhor dizer que ele sabia um pouquinho de cada coisa, por isso que eu tinha aquela impressão de que eram tantas coisas assim.

Se eu tivesse dúvidas sobre polvos gigantes, ele, com poucas palavras, dizia coisas que me deixavam sem respostas.

É meio lamentável dizer que um dia perdi a sua medalha do exército, mas a culpa não foi minha. Estávamos na frente de casa sentados ao vento enquanto ele contava coisas sobre os seus dias no agrupamento dos fardados. A medalha estava na minha mão mas minha mãe me chamou pra lanchar. Sei muito bem que entreguei o objeto pra ele e entrei correndo pra pegar o refrigerante e o bolo. Sendo assim, a responsabilidade pela medalha passava a ser totalmente dele, mas na sua versão, a medalha nunca chegou em suas mãos. Sou mais novo do que ele e minhas memórias estão claramente mais claras. Eu absolvo-me.

— Nindinha, cheguei, já vou entrando tá? - gritou ele do portão.

Revê-lo bem no dia de Natal foi especial. Haviam tantas coisas que eu queria contar que apenas um dia não seria o suficiente. Ele era o meu confidente, pro Luiz eu contava tudo o que eu aprontava por querer ou sem querer, só ele sabia que o gato Godofredo foi afogado por mim na piscina do Clube da Vila e depois daquele dia nunca mais voltou pra casa dos seus donos. Só pra ele eu contei que retirava as roupas do varal da dona Lucinda e as jogava dentro do barril de lixo. Por mais que eu ficasse um pouquinho contrariado nas vezes em que ele me dava sermões por causa de algumas situações ou por não concordar em brincar comigo de bola na rua, tenho que admitir que ele sempre foi o máximo, uma espécie de melhor amigo número dois.

— Tio, é bom te ver de novo, como que tá?
— Tô bem meu moleque, e você, anda aprontando muito?
— Claro tio, o que seria do morro sem o Pimenta por perto?
Nessa hora a minha mãe esticou o pescoço da cozinha e nos olhou com olhos de coruja, ''missa minha, missa minha, qualquer dia eu vou aí'', ela tinha o costume de dizer isso quando escapava de alguma sinuca de bico, e foi o que eu disse, bem baixinho.

— O que você disse? - meu tio perguntou enquanto ligava a TV.
— Nada não tio, tô pensando demais. Me conta aí, vai embora só ano que vem, né?

Ele riu e gaguejou. Nesse ponto o Luiz era meio misterioso, só andava às pressas e nunca ficava num lugar por muito tempo. Nem mesmo em sua casa ele costumava ficar mais do que um mês. Vivia viajando. Com um pouquinho mais que o dobro da minha idade ele já conhecia vários lugares do Brasil e uns até da Europa e América do Norte.

— Bem que eu queria Biel, mas não tem como!

Esse ''bem que eu queria'' era só pra não me deixar triste, eu já estava acostumado, mas o ''não tem como'' me dava medo. Pensei em algumas possibilidades pra que ele não pudesse de maneira nenhuma ficar por lá, mas somente uma delas martelava a minha cabeça: será que ele fazia parte de algum grupo mafioso cheio de esquemas e precisava voltar logo pra tocar o negócio? Na verdade eu nunca soube o que ele andava fazendo depois que decidiu abandonar as forças armadas.

Ah, mas mesmo que fosse isso, o Luiz podia tudo. Quem não podia era eu! Eu não podia pensar coisas ruins dele, afinal, meu tio era meu tio, e com os membros queridos da família não se pode pensar coisas feias, ainda mais a minha, uma família tão pequena.

A noite de Natal foi emocionante. Luiz me contou algumas histórias que tocaram o meu coração. Agora, naquele momento, além de endiabrado eu era um chorão. Pode isso? Um diabinho chorão? Choraminguei enquanto ele falava da sua juventude, dos poucos amigos verdadeiros que teve, das situações ruins que passou e de coisas que eu nem imaginava existir. Pelo jeito o Luiz havia plantado uma semente de bondade no meu coração. Por certo a bondade já existia em mim, mas era como uma grande árvore seca e sem frutos. Eu só enxergava o meu próprio nariz e a falta de um irmão provavelmente me fez ser um pouquinho mais cruel do que as outras crianças.

Certa vez, no recreio da escola, na hora do futebol com a penca de meninos na parte descoberta da quadra, depois do meu chute horrível o desfecho não poderia ser bom. Acertei a bola na cabeça do Rômulo, um branquinho que usava óculos. O chute foi forte mas eu não tive a intenção de acertá-lo. Tentei acertar o gol mas o moleque passou bem na frente. Na hora todos os meninos foram correndo pra saber se o Rômulo estava bem, mas eu continuei de longe sem o mínimo de mal-estar.

— Corre aqui Pimenta, ele tá sangrando! - falando em sangue, o Vinícius era sangue bom, era amigo de todos.
— Eita, os óculos dele quebraram - isso daí quem falou foi o meu xará, o outro Gabriel, o Coelho.

Depois que ouvi a palavra sangue me deu um pouquinho de curiosidade. Corri até lá e vi o moleque caído. Ele se contorcia enquanto passava a mão na nuca. Eu, sempre eu! Pedi desculpas, o ajudei a se levantar e virei as costas, queria voltar pra sala, mas uma voz ainda insistiu:

— Mas e os óculos dele Pimenta? - acho que foi o Vinícius de novo.
— Ué, eu não sou o pai dele, ele que compre outro - foi o que respondi.

De certa forma eu estava certo, e você há de concordar comigo. Eu não podia fazer nada quanto aquilo. O culpado foi o Rômulo, ele passou na frente do gol na hora do chute. Eu não tenho freios nas pernas, quando olhei já era tarde.

— O nariz dele não para de sangrar, cara! - Manú-Manú também se preocupou.
— Ah, é só colocar um pedacinho de algodão em cada buraquinho do nariz que para rápido, daí ele até vai ficar parecendo um defunto - disse e sorri!
— Você não tem jeito né, é um pimenta mesmo - Manú-Manú gargalhou.

Por alguns fatos assim que muita gente diz que eu não tenho um coração ou que ele é artificial, mas enfim, vou seguir em frente com as coisas do dia de Natal.

Luiz chegou apressado naquela manhã dizendo que viera direto de Goiânia e não passara em casa pra descansar. Ele não me deu presente algum mas disse que era pra eu escolher qualquer coisa que ele daria na manhã seguinte, antes de ir embora. Claro que sua presença pra mim já era de grande alegria, mas já que era pra escolher um presente eu pensei na minha bicicleta. Ele era meio rico, vivia viajando e uma bicicleta de quatrocentos paus não deixaria um rombo na sua carteira.

— Eu tenho vergonha de pedir o que quero.
— Mas, por quê?
— Porque a coisa que eu quero é um pouco cara.
— Então tente, vamos ver se eu concordo com você.
— Tá bom então tio, é uma bicicleta azul com pneus-balão, daqueles largos que podem passar em qualquer lugar.
— Uma bicicleta?
— É, eu vi na Bike Storm, a loja lá da rua principal.
— Sei onde é, amanhã de manhã vamos lá então.

O sorriso de orelha a orelha me visitou por uns dez segundos, até que a minha mãe veio colocar atrasos na minha conversa.

— Nem pensar Gabriel, você não tá merecendo uma coisa assim de presente.
— Mas mãe, eu nunca mais arrumei confusão!

Pelo olhar, meu tio aparentava querer opinar sobre aquela questão, mas como sempre, não gostava de se meter nas ordens da minha mãe. Mas o bom é que ele sempre tinha uma saída pra tudo e daquela vez não foi diferente, ele parecia ter um truque na manga, mas não vamos lembrar de manga, certo?

Dona Nindinha de vez em quando tinha os seus ataques de nervosismo e o Natal não poderia ser estragado por causa de uma bicicleta.

— Você não tá merecendo, anda muito respondão e bagunceiro.
— E o que eu mereço então, só mereço coisas ruins pra minha vida? - zanguei-me.

Devia ser quase onze da noite quando entrei no meu quarto e fiquei um tempinho por lá. O calor estava bravo, mas a janela escancarada bem no alto do morro deixava o vento fazer carinho no meu rosto. Fiquei pensando numa maneira de convencer a minha mãe. Olhei as estrelas, o povo que descia e subia a ladeira e de repente desisti. Sei lá, uma sensação ruim passou dentro de mim e me fez esquecer o tal carro de duas rodas que eu tanto queria. Eu esqueci tão rápido que quando voltei pra sala, só falei sobre comidas do Natal. A ceia foi abençoada.

***

Meu tio conseguiu convencer a minha mãe. Eu nem acreditei quando eles me falaram no café da manhã. O meu pão com manteiga quase caiu da minha mão. No copinho de plástico havia leite com achocolatado que foi bebido por mim num gole só. Realmente eu fiquei eufórico, cantei por dentro ''VOCÊ ME FAZ CORRER DEMAIS OS RISCOS DESSA HIGHWAY, VOCÊ ME FAZ CORRER ATRÁS DO HORIZONTE DESSA HIGHWAY...'' enquanto me controlava pra não dar pulos incontroláveis de alegria.

Ah, sobre as músicas que eu cantava na imaginação eram todas do repertório do Luiz. Desde que eu era pequeno sempre fui influenciado por seus ritmos. O rock era o preferido, mas com o passar do tempo fui misturando muitas coisas minhas também, e aí entraram funk, pagode e rap. Minha discoteca imaginária era repleta de coisas legais. Mas não gostei de ''discoteca'', parece ser coisa de velho, melhor eu dizer meu MP3 ou pen drive imaginário, é isso que os garotos usam pra guardar as suas canções. Estamos em 2012 e eu com onze anos já posso dizer que sou eclético... Sempre quis dizer isso pra alguém.

Mas voltando ao assunto da bicicleta, depois que entramos na Bike Storm mudei levemente de opinião. Levei pra casa um carro de duas rodas vermelho e preto, cores do meu time de coração. Quando cheguei em casa, a felicidade era incontrolável.

— Valeu tio, como posso te agradecer?
— Não precisa fazer nada pra me agradecer, aliás, me dê um beijo e pense muito naquilo que conversamos na noite passada.

Essa parada de beijo era meio sem noção e a conversa da noite que passou, qual era mesmo?

— Smaaack pra você tio - sorri.

A onomatopeia saiu pela felicidade. Já que ele queria um beijo tudo bem, aquilo não era o fim do mundo, mas minha boca é um túmulo e a metáfora é verdadeira nessa situação. O que os moleques diriam se me vissem beijar o meu tio? Ah, pra mim não era nada demais, mas Rafael zoaria até o ano que vem.

— Valeu, já volto sorriso de lata - Luiz me chamava assim de vez em quando.

Era em tom carinhoso. Às vezes derivava sorriso brilhante, sorriso de metal ou na pior das ocasiões Boca de Jacaré. Eu até que gostava, tudo o que viesse daquele cara tão inteligente era pra ser guardado, coisas boas a gente não joga fora. Claro que a boca de um jacaré é bem fedida e os seus dentes com certeza são repletos de cáries, mas o que vale aqui é a consideração, a exclusividade.

Aquele Natal foi MÁGICO!

***

Então é isso, esperamos que tenha gostado deste pequeno trecho da vida de um dos meus personagens, Gabriel Pimenta. Um forte abraço em cada um e novamente, Feliz Natal.

- Leonardo Otaciano
- Matheuz Silva

Comente com o Facebook:

6 comentários:

  1. Lindo!!!
    Feliz Natal!!!
    Esse é outro livro que preciso ler urgentemente!!!
    Abraços para vc, para o Matheuz, para o Luciano e toda a família!!!!

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigado amigo, agradecemos de coração.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Parabéns! Muito lindo.
    Feliz Natal com muita Paz e saúde!!!

    ResponderExcluir
  4. Obrigado querida Luh.
    Tudo em dobro.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Muito Obrigado amigo. Espero que seu natal tenha sido abençoadooooooooooo.

    ResponderExcluir
  6. Gabriel, o Natal aqui foi super abençoado sim, graças a Deus.
    Um forte abraço.

    ResponderExcluir
:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd