segunda-feira, 27 de julho de 2015

Texto: ''Mistério na Casa da Rua Severin, Volume 2 - O Retorno ao Solo Maldito'', primeiros capítulos

Mistério na Casa da Rua Severin, Volume 2
- O Retorno ao Solo Maldito -

PRELÚDIO
REFERÊNCIAS AO TENCIONADO RETORNO

Santa Catarina, Brasil, meados de 1992


Enfim retornamos a Caçador. Brendon e eu decidimos voltar ao solo dos assassinatos no inverno de 1992. O mês era junho, o dia, nove; uma terça-feira em que o sol já começava a se pôr e o vento se tornava gelado em meio aos primeiros indícios de escuridão. A ideia não foi minha, por certo os pesadelos que o guri andava tendo foi um fator importantíssimo para nos guiar até a cidade novamente. Mas confesso que este também era o meu desejo, desde a minha volta para Tangará – há cinco anos – me senti preso como em correntes e levantei poucos assuntos sobre Caçador. Talvez o medo que senti durante os dias de fuga e descobertas na cidade natal de Brendon, tenha retido toda a minha capacidade de prosseguir com os gostos por assuntos sobrenaturais. Na verdade, só me senti realmente preparado logo após escrever e relatar a quem estivesse disposto a ler a história daqueles desconhecidos poloneses em janeiro de 1991.

Brendon certamente roubou de mim o espírito corajoso que eu sempre pensei ter, para ele, fantasmas, enigmas e muita confusão não eram apenas desejos passageiros, tornou-se uma verdadeira necessidade ao longo de toda a sua formação. Após os seus doze anos ele cresceu em estatura, que já era muito aproximada a minha, e também em valentia. Na verdade a coragem nunca lhe faltou embora nem sempre ele tenha a exibido claramente em suas atitudes, mas os olhares constantemente transbordavam as suas vontades. Decerto eu também era um piá valente, mas depois dos quatorze preferi evitar sair em busca de certos problemas. Eu resolvi descartar o símbolo de garoto problemático desde quando me entendi com o meu pai.

O verão de 1987, tão marcante para nós por razão dos dias em que os assustadores espíritos dos filhos do senhor Lhidvan Severin nos embrulharam dentro da mansão mais apavorante que eu já vi na minha vida, fora o fato mais acentuado da minha adolescência, mas depois de tudo o que vi, tranquei-me em meus pensamentos por vontade própria. Nunca imaginei que Brendon e eu pudéssemos nos tornar tão unidos após àqueles dias, a nossa amizade acabou se tornando um vínculo inquebrável. Eu era capaz de ler os seus pensamentos só em observar as suas milhares de expressões feitas dentro de um minuto único. O guri se tornara um verdadeiro “eu”, era incrível todas as nossas semelhanças, Michael ficaria enciumado se estivesse entre nós ainda. Falando nele, saudade imensa das suas particularidades e dos seus olhares estranhos que diziam mais do que a sua própria boca, que ao final de tudo, não foi capaz de contar o fato mais importante sobre a família Severin.

Quando retornamos ao município amaldiçoado dos antigos Severin, apesar de diferente, os ares ainda transmitiam aquele misto de sensações esquisitas que Michael dizia ter e que os outros e eu sentimos nos dias aterrorizantes de 1987. Certamente já havia por lá coisas novas que nós desconhecíamos. Os pesadelos do guri eram claros, embora o preto e branco predominasse em toda a sequência de suas noites conturbadas, o que ele sempre via naqueles sonhos ruins eram pessoas bizarras e muito sangue. Era comum que eu perdesse o sono por motivo dos seus gritos de medo e gestos desesperados como se estivesse sendo carregado a força para algum lugar por aqueles indivíduos desconhecidos que ele sabia descrever perfeitamente. Pode parecer uma repetição do verão de 1987 mas o que vivemos em 1992 foram momentos novos e inesperados como o som que as cordas da guitarra de Jimi Hendrix fazem em “All Along The Watchtower”.

Foi necessário retornar. Brendon tinha esse desejo agudo e eu segui a sombra desse querer. O piá inundou-se de urgência para tal ação. Ele não sossegou enquanto não pôs as solas de cada calçado na poeira daquele chão marcado pelos fatos da família Severin na década que se passara. Os pesadelos serviram, na verdade, como um gatilho que a alma aventureira do guri puxou durante as noites maldormidas em Tangará, o fazendo ter a excessiva ânsia de vivenciar novamente fatos sobrenaturais e arrepiantes. Ele já tinha dezessete e apesar das meninices que ainda carregava consigo, amadureceu depressa após a morte de Michael e o sumiço de Bárbara. Falando nela, após um ano, a mulher de atitudes duvidosas ainda continuava desaparecida. Muitos em Caçador a citavam como a provável assassina da família Severin, mas isto, talvez apenas o grande contista pudesse evidenciar caso ainda estivesse vivo.

A Rua Severin ainda era assustadora e pouca coisa havia mudado por lá depois da nossa passagem pelo município. O fato mais inovador foi a construção de uma nova casa no antigo local da velha mansão dos Severin. A moradia era pequena, bem menor do que a casa do senhor Lhidvan, não havia como comparar, mas o medo era semelhante. Senti uma ânsia de vômito equivocada que embrulhou o meu estômago e me provocou arrepios prolongados parecidos com aqueles que eu já havia sentido anos atrás, mas desta vez, era diferente, estranhamente diferente. A luz acesa em tom amarelado que piscava por vezes em meio ao nada que envolvia o casebre deixou-me com mais medo. De repente, em uma daquelas piscadelas vi um rosto sem expressão na janela da casa. Os olhares do próprio eram fixos e não transmitiam nada. A figura estava inteiramente envolvida pelo breu e sumiu após uma sequência de três ou quatro piscadas da lâmpada. Brendon tornou-se também um piá estático, os olhos não piscaram por vários segundos e a ação de qualquer um dos braços também lhe faltou. Os Severin se foram mas deixaram heranças pavorosas, tanto em nós, que vivenciamos aquilo tudo durante alguns dias da nossa adolescência, e também no município, mais precisamente naquela rua, que agora ganhava novas colunas, outro teto e diferentes tipos. Era como se a mansão que anos atrás fora incendiada por nós, ganhasse, anos depois do desastre, uma filha, construída por aqueles atuais moradores, que se apresentaram para nós dias depois, excessivamente amigáveis, característica esta que desengatilhou em mim os piores pensamentos sobre eles. Desconfiei, confesso, e fiquei precisamente concentrado a partir de então.

Novas amizades nasceram no nosso retorno a Caçador. Mesmo cercado por uma terra desgraçada que sugou tanto sangue e maldade há anos, a localidade ainda conseguia guardar belas realidades, entre elas, as gurias que conhecemos. Helena Schafer e Angelita Cegan, assim como os atuais moradores da Rua Severin, eram novatas nas redondezas. Chegaram no município um pouco antes dos indivíduos aparentemente amigáveis. Foram estas gurias que nos acompanharam em nossos passos precisos e imprecisos até os entornos da rua. Exponho novamente a minha paixão por pessoas que possuam uma alma aventureira, e elas eram exatamente assim. Jamais imaginei que moças pudessem ter aquela excessiva coragem que eu tanto dizia ter em outros tempos. Senti-me, muitas vezes, envergonhado perto delas por não acreditar que as suas ofensivas sobre os fatos esquisitos que apareceram no município logo após a chegada dos novos moradores da casa construída, pudessem ser exatas. Brendon associou os palpites nada exagerados de Helena e Angelita aos seus pesadelos. Ele não perdera o seu verdadeiro foco em desvendar a obscuridade de tudo o que via enquanto dormia. Era uma primordialidade descobrir o motivo de ver imagens turvas de pessoas desconhecidas e gritos desesperados em Caçador. Ele se via no meio daquilo tudo. Se mostrava como personagem envolvido diretamente com aquelas pessoas em seus pesadelos. Pretexto ou não, tal escolha foi o que preencheu junho de 1992.

O nosso ciclo foi bem mais longo do que a nossa primeira passagem pelo local mal-assombrado de Santa Catarina. O objetivo desta vez era entender os desaparecimentos de alguns moradores e também as atitudes estranhas que muitos habitantes de Caçador começaram a apresentar há meses.

Contarei a ti os eventos mais surpreendentes a respeito dos atos ocultos da dona do casebre levantado no local antigo da mansão dos Severin, Leiza Niara e de seu casal de filhos Isack e Trinity. Segundo informes dos indivíduos de Caçador, mãe e filhos possuíam costumes estranhos e usavam o fundo da casinha para praticar uma espécie de ritual demoníaco. Entendas comigo como tudo aconteceu no nosso retorno àquele solo maligno. 

CAPÍTULO 1
A DESTRUIÇÃO DO MEDO EQUIVOCADO

Videira, Santa Catarina, vinte e oito de maio de 1992

A fase de infância havia se tornado passado. Eu já tinha dezenove. Parece que o tempo não foi muito gentil comigo, ele passou depressa, tão depressa que num piscar de olhos tudo o que eu tanto idealizava aos quinze sumira de todo o meu contexto, assim, rápido e silenciosamente sem que eu notasse. Mas eu preferi me manter sossegado. Tranquilo e tão sossegado ao ponto de não criar interesse algum em nada que estivesse ao redor. Eu não havia perdido o vício de ouvir músicas durante grande parte dos dias. Isso se repetia durante toda a semana e ao fim do mês o que se observava era novamente o meu desinteresse. A escola também já era passado. Terminei o colegial por causa da persistência, na verdade essa persistência partiu primeiramente de Brendon, que não retia esforços para me incentivar quase que loucamente. Isto eu devo ao guri. Talvez, se não fosse por todas as suas palavras lançadas a mim com aquele ar de explosão que inundava a minha mente, eu ainda estaria aturando o falatório contínuo de todos aqueles professores enjoados que não me diziam nada de interessante. Ainda bem que o tempo passou, era bom ser adolescente, mas aturar aquela rotina não era nada fácil.

Os dias em Tangará foram interrompidos há algum tempo. Brendon e eu viajamos para Videira. Nosso pai havia feito uma viagem a trabalho até o município há um mês e decidira ficar por lá até que o seu compromisso fosse finalmente concluído. Após a morte de minha querida mãe há um ano, a vontade de continuar morando em Tangará não era mais a mesma. Para mim não havia diferença ficar em Videira ou em Pinheiros ou em qualquer outro lugar do Brasil ou do mundo, o que eu desejava mesmo era me manter o mais longe possível da nossa casa, que sempre me trazia lembranças de dona Lisane. Talvez agora tu entendas a minha falta de interesse desta vez. As esperanças de dias melhores foram todas embora junto com minha mãe dentro daquele caixão. Ela sofrera bastante com aquele câncer desgraçado que a amassou bruscamente durante seis meses e pisoteou todas as suas forças não deixando que ela continuasse mais entre nós. O meu pai sentira bastante a passagem de dona Lisane para o outro mundo da mesma forma que eu, ou talvez ainda mais, afinal, o amor dos dois, mesmo não sendo igual a de um filho para a sua mãe, nasceu, cresceu e prolongou-se desde a fase de adolescência de ambos. Até Brendon, novato na família, mostrou-se claramente nocauteado com a partida dela. Talvez fosse comum que ele vivenciasse tantas mortes, mas, mesmo assim, aquela lhe causou dolorosas sensações. Nossa irmã Kethelyn, que já não morava conosco há anos e perdera o costume de nos visitar constantemente, não mostrou-se tão triste com o óbito da mãe, assim analisei, mas quem sou eu para julgar o sentimento de cada indivíduo? Sentimos cada um o que queremos sentir, demonstrando ou não, então, por esta explicativa, não costumo entrar no corpo de cada um para tentar imaginar se o que eles dizem é realmente verdade. A verdade, aqui, é que eu fiquei extremamente decepcionado com aquela, que em outros tempos, aclareava para nós, todos os seus sentimentos bons ou ruins e preocupava-se logo quando dona Lisane sentava no sofá reclamando de uma leve enxaqueca. Bem, mas de repente esqueci de permanecer lembrando disto tudo, por certo foi algo que senti e rapidamente joguei fora na beirada de um meio fio como um cigarro usado pela metade.

Videira era calmo e receptivo. O rio amarelo o separava do município vizinho. Às bordas dele, quase que em todas as tardes, eu permanecia sentado próximo as pedras gigantes. Aos dezenove anos e envolvido por toda a situação da senhora minha mãe, eu não era muito incomodado por meu pai. Acho que ele entendia o meu silêncio assim como eu compreendia o seu desespero em correr atrás de trabalho para manter a sua mente ocupada o maior tempo possível. Depois dos episódios incomuns de 1987 o senhor Henderson criou uma cega fé em mim, foi algo um pouco assustador mas eu resisti a vontade de perguntá-lhe sobre a sua mudança repentina e deixei que a paz sobrevivesse em nossa relação. De certa forma eu também passei a confiar mais em suas palavras do que antes mas não cegamente, isto não era uma característica minha, para tudo o que diziam havia sempre uma contestação de minha parte, mesmo que fosse pequena ou em pensamento. 

- Bah, tu estás aí, não é? Nem procurei em outros lugares antes de vir aqui... O nosso pai procura por nós, ele quer acertar o dia de nossa volta para casa - Brendon usava uma camiseta cinza. Ele achegou-se, meigo e sorridente como de comum. Antes de se sentar quase que ao meu lado, olhou para o horizonte do rio e denotou a mim:
- Estás pensando na sua mãe, não é? Às vezes eu também penso que ela ainda está entre nós e que tudo o que aconteceu não passou de um pesadelo, mas aí a pesada realidade me sacode e eu acabo voltando pra ela.
- É Brendon, este é um buraco que vai ficar na minha alma pelo resto da minha vida. E se me dizerem que o tempo vai curar esta dor, de nada irá adiantar pois sei que é só mais uma frase daquelas que não fazem sentido.
- Eu entendo tu. Não posso sentir a mesma coisa que tu sentes e com a mesma intensidade mas consigo entender. Mas não vai adiantar ficarmos remoendo isto tudo. Vamos embora irmão, temos que combinar as coisas com o pai, ele está nos esperando no armazém - Ele levantou-se, jogou uma pedrinha no rio, virou-se e foi na frente. Depois eu o segui, praticamente forçado.

A realidade era pesada e tinha que ser deixada de lado, o piá tinha razão, mesmo que eu não pudesse ou conseguisse fazer isto. Voltamos para o armazém onde meu pai se encontrava com mais três rapazes responsáveis pela compra e exportação de cerâmicas. Um deles, o responsável geral pelo setor, de aparentemente quase sessenta anos, questionou o meu pai a respeito da minha conduta profissional. Certamente pela razão de avistar a sua frente um guri tão saudável e aparentemente normal, o senhor se achou no direito de entrar pelas portas da frente de nossas vidas a procura de razões para o meu desleixo. Até que o senhor Henderson foi bem seguro em suas palavras quando relatou para aquele homem o desejo de querer para os filhos um futuro melhor do que aquele que ele próprio tinha e vivia no momento. Surpreendi-me, confesso, e achei injusto também ver o suor escorrer por seu rosto enquanto ele, senhor moldado porém esforçado além até do que os próprios limites, carregava algumas caixas daquele material tão sólido quanto a minha falta de atitude em ajudá-lo. Brendon era mais presente e o auxiliava em todas as questões sobre a fábrica, tornou-se, de fato, o herdeiro de todo aquele dito luxuoso império da nossa família. Não que o guri estivesse de olhos grandes no tal tesouro da família mas certamente não jogaria fora a oportunidade de ficar a frente dos negócios quando chegasse a hora. 

- E então Érico, o que achas de irmos embora amanhã? O trabalho aqui já acabou e eu não pretendo prolongar a nossa estadia nesse lugar. Estava pensando em voltar logo - Ele me olhou com olhos sobrecarregados. O cansaço era visível. Eu não poderia contrariar as expectativas dele naquele momento.
- Tudo bem, façamos isto então. O que achas Brendon? 
- O que eu acho? Acho que já enjoei daqui Éric, a cidade é bonita mas eu já fiquei desacorçoado de tanto olhar aquele rio. Por mim voltamos o quanto antes para Tangará - Brendon sempre exibia o seu bom humor quando não esperávamos. Naquela situação não foi diferente, apesar de estar esgotado pela falta de atrações que o pequeno município tinha, ele ainda achou tempo para usar as suas insignes frases.

A noite demorou a passar, pelo menos para mim. O frio não conseguiu me vencer tão cedo. Enquanto ambos dormiam, achei tempo para lembra-me de alguns acontecimentos da minha vida. Na infância, os tempos de pêca costumavam ser apreciáveis e na adolescência, a rebeldia foi o fato mais marcante para mim e em meus pais. Eu pensei tanto naquela madrugada que por fim lembrei o ano em que conheci a cidade de Caçador. Era certo que ao relembrar o município, as coisas assustadoras que aconteceram por lá teriam que ser retiradas da minha cafua de medos também e enquanto os espíritos dos filhos do senhor Lhidvan me despertavam arrepios ao trazer-lhes aos meus dias atuais, Brendon, de repente, como um piscar de olhos, achega-se ao meu lado me causando susto e surpreendendo-me com uma voz baixa e cansada:

- Por favor, não podemos voltar para Tangará.
- Como assim Brendon, tu estás bem? O que está acontecendo?
- Nós precisamos correr até aquela cidade maldita.
- Do que tu estás falando? A qual cidade estás se referindo?
- Tu sabes muito bem Éric.
- Tu só podes estar falando de Caçador... mas...
- Sim, é para lá que nós temos que ir. Vamos amanhã, não podemos perder mais tempo.
- Mas por que estás falando isto? Tu sabes de algo que eu ainda não sei?
- Eu tive outro pesadelo Éric e desta vez foi muito mais real do que os outros.
- O que aconteceu desta vez?
- Eu vi o meu irmão na Rua Severin, não sei o motivo deste pesadelo mas acredito que devemos ir pra lá.
- Sonhastes com o Michael de novo?
- Sim, ele não dizia nada, mas estava como sempre foi, estranho e pálido.
- Mas não faz sentido algum irmos para Caçador só por causa deste sonho, Brendon.
- Não é pelo sonho, talvez tu não sintas o que eu sinto, mas eu preciso voltar lá e mesmo que tu não vá comigo, eu irei sozinho.

O piá, enfim, após anos de silêncio, rasgou o pano que prendia os seus desejos e lançou a mim todas as suas vontades, que agora se libertavam uma a uma junto àquelas palavras que ele dizia tão ofegantemente. Sem dúvida, devo agradecê-lo pela iniciativa tão sinistra que também me contaminou rapidamente. Eu sentia aquelas mesmas vontades, embora estivessem muito mais bem guardadas do que nele. Depois daquela madrugada, acordamos decididos a partir para Caçador. O senhor Henderson reagiu bem. Brendon pensou em partir sem avisá-lo e em outros tempos aquela ideia seria minha, mas o tempo modificou alguns traços da minha pessoalidade. Meu pai se tornou amigo meu, dessa forma, notificá-lo sobre os meus passos era algo incontestável para mim, um ato de respeito pela pessoa que ele havia se tornado.

- Tu não queres que eu vá também Érico? Afinal, os serviços terminaram, não devemos ter novos compromissos nas próximas semanas.
- Não pai, volte a Tangará e cuide das coisas por lá, Brendon e eu não pretendemos prolongar a nossa passagem por lá muito tempo, não se preocupe. 
- Tudo bem, mas tome conta do seu irmão, não deixe que ele compre um chôn por lá.
- Que palha, já tô reinando com esta conversa. Mas é claro que vou voltar pai - Brendon abraçou o senhor Henderson com pressa, os pesadelos das noites passadas o atraíram ao seu município de origem causando-lhe, a partir de então, quase uma cegueira incontrolável.
- Mas tenho certeza que será bom para ti voltar a sua cidade, Brendon. Quem sabe as coisas por lá não se tornaram melhores e até notícias de Bárbara tenham aparecido entre os moradores! Vá e aproveite este tempo para matar a saudade de tudo que ainda andas se lembrando.
- Matar a saudade de quê pai? As coisas das quais eu sinto saudade não poderão voltar. Mas concordo com o senhor, provavelmente será bom que eu retorne lá. Apesar de não ter mais parentes em Caçador, gostaria muito de saber que rumo tomaram as coisas por lá.

Ajuntamos os nossos amontoados de objetos e jogamos em nossas mochilas. De lá mesmo partimos. Videira ficava para trás assim como um cometa que passara há anos pelo escuro e desconhecido universo. Em questão de minutos não lembrávamos mais dos nossos últimos pensamentos. O que havia dali para frente eram novos ideais entre nós e o futuro próximo. Deixamos de novo o medo de muitos incontestáveis imprevistos e equívocos sem indagarmos nada a mais sobre a realidade que encontraríamos no solo esquisito que floresceu anos atrás a minha primeira paixão da adolescência. Não havia como não associar o município com a família polonesa mas sabíamos de fato que eles já eram passado, o que poderíamos encontrar eram vestígios de cada maldade prestada contra muitos moradores ou quem sabe vários atos enraizados daqueles estranhos indivíduos que poderiam estar se desenvolvendo agora, mas enquanto isso, restava a nós, apenas delírios criados e expandidos de um envelhecido, mas ainda, terror real.

O primeiro passo já estava dado, em breve faríamos parte novamente de algum efeito sacudido propositalmente com finalidades ousadas para satisfazer nossos próprios desejos em continuar uma história que, para todos nós, ainda estava pela metade. "Heat Of The Moment" definia claramente aquele instante, no qual o nosso suor de aflição síncrona dizia o que o coração queria falar. 

Brendon estava cansado e adormeceu. Mais uma noite que passara quase em claro o deixou enfraquecido para acompanhar a viagem até o velho município. O transporte não estava lotado, muitos assentos estavam vazios e o interior da condução seria oco se não fosse por nós e algumas outras pessoas. Eu não conseguia entender ainda o motivo da associação do termo "esquisito" com aquela cidade de Santa Catarina. Os homens e mulheres nos assentos da frente eram bizarros demais, até a face do motorista exposta no espelho central do ônibus era algo meio espantoso. Possivelmente o meu passado revirava o meu presente e me deixava repleto de fantasias, mas, mesmo assim, era inegável o ambiente sinistro que se criara em poucas horas de viagem.

Uma menina, com aproximadamente dez ou onze anos, que estava assentada nas últimas poltronas, de repente localizou-se ao lado da minha cadeira. Assustei-me imediatamente quando a vi parada no corredor do ônibus, em pé, olhando impertinentemente para mim, logo após a passagem do veículo pela floresta de alpendre. Olhei para trás e o que vi foram assentos completamente vazios. O corredor também estava livre. As cortinas finas de cada fenestra balançavam e faziam um barulho insistente enquanto o vento entrava brutalmente por cada uma delas. Subitamente o ônibus brecou. Estávamos na viradinha do cotovelo, um local muito perigoso na velha estrada que ligava as duas regiões. Algumas vozes de apreensão começaram a preencher o vazio do interior da condução e em poucos instantes o silêncio que só era quebrado pelo ruído do vento em cada cortina foi completamente desfeito pelas falas de desassossego dos poucos que nos circulavam. Brendon abriu os olhos assustado e levantou-se rápido da poltrona. 

- O que está acontecendo Érico, por que paramos aqui?
- Não sei, o motorista brecou instantaneamente e não retornou o trajeto ainda. Eu me distraí com essa guriazinha e não vi o que aconteceu.

De repente, olhei para o lado e não encontrei a criança; os corredores agora eram ocupados por alguns adultos e em nenhuma parte dele era possível rever a guria.

- Mas, de que guria estás falando? - Brendon olhou-me e aguardou uma resposta.
- Não sei... ela estava aqui, agora. Deve ter se misturado com o povo ali da frente - Falei, mas não tinha certeza daquilo.

Mais uma vez, em direção ao município estranhamente obscuro e singular, éramos surpreendidos por cenas incomuns. Isto me deu a certeza de estarmos indo para o lugar certo e no momento mais oportuno possível. Algo acontecia por lá, assim como algo nos esperava, só restava sabermos o que de tão magnífico ou medonho era preparado para nós daquela vez.

CAPÍTULO 2
A ESTRADINHA DO HORROR

Rodovia Engenheiro Lineu Bonato,
Rio das Antas, Santa Catarina,
vinte e nove de maio de 1992

Os passageiros desceram. Mesmo em pouco número a confusão foi feita. Todos questionavam o condutor a causa de tê-lo feito parar o zarco bem naquela viradinha, que segundo lendas da região, era saturada de maus olhados e anunciava má sorte. Ele não soube explicar de imediato o que havia acontecido para que o transporte ficasse imóvel mas entendi quando ele desesperou-se enquanto colocava a mão na cintura.

- Havia uma guriazinha na estrada. Brequei o ônibus com rapidez quando ela atravessou de um canto ao outro.

Não era possível. Enfiei-me entre os passageiros a procura da criança que ficou ao meu lado no passadiço do veículo. Quando iniciei a busca, meus interrogatórios internos me passavam a incerteza de achá-la mas logo percebi que era evidente não encontrá-la.

- Mas, como assim, senhor? De que guria estás falando? Não há ninguém nesta estrada, estamos sozinhos, rodeados por este matagal. O que uma criança estaria fazendo aqui no meio do nada? - Advertiu um homem alto, que usava óculos e toca escura. Ele parecia muito imbuído e não deixou que possíveis fantasias tirassem o seu foco de realidade.
- Ela era negra - interrompeu o condutor - tinha cabelos rebeldes, bastante volumosos.
- Pare de falar coisas sem sentido, senhor. Vá toda vida reto nesta estrada e nos leve para Caçador, estamos perdendo tempo aqui.
- Tu estás louco. Não deves ter dormido a noite passada e agora estás vendo coisas pelos cantos. É um perigo entrarmos neste zarco e continuarmos a viagem com ele. Este homem não está bem - relatou uma das senhoras, que estava escorando-se à frente do veículo.

Eu soube naquela confissão que ele não estava louco. A guria que ele descreveu era a mesma que eu vi. No ato da descoberta, meu coração paralisou-se por questões de milésimos de segundos e voltou a bater num ritmo desacelerado logo em seguida. Não tive escolhas. Fui até Brendon e contei. Ele revelou que também já havia presenciado atividades da guria em seus pesadelos. Soube a descrever mais perfeitamente do que eu. Não assustei-me, afinal, éramos assim, tínhamos esta capacidade de entender e testemunhar eventos espantosos. Tenho certeza que todos os que se encontravam ali, conosco, no meio da velha estradinha do horror, no fundo de seus mais guardados tinos, lutavam contra os seus maiores ou menores pavores. Podiam fingir para quaisquer outros mas jamais encobririam o medo para si mesmos.

As trovoadas anunciavam uma tempestade. A chuva chegou forte em questão de minutos e colocou um ponto final na discussão entre condutor e passageiros descrentes. O ato seguinte foi a volta para o interior do ônibus. Todos retornaram com possíveis medos de continuarem a viagem com aquele motorista. Brendon mostrava-se inquieto. As suas sobrancelhas levantaram-se quando o motor do ônibus rinchou sinalizando a continuação da viagem. Quando tudo parecia devidamente ponderado, o que vimos do lado de fora do ônibus nos causou susto mais uma vez. Enquanto o zarco procedia lentamente de volta a estrada, a guria negra olhava o movimento do veículo estaticamente ao lado de uma árvore, nem a tempestade que caía foi capaz de fazê-la se mover. Brendon e eu arregalamos os olhos enquanto pressionávamos o vidro da janela e o batíamos com força desesperadamente gritando por um ser que seguramente não era vivo. Desesperei-me com aquele olhar que me trouxe maus pressentimentos. Num surto de humanismo, levantei-me do assento e corri até o motorista para anunciar o reaparecimento da guria na beira da rodovia, certamente a minha ação foi errada, o condutor desviou o olhar da via e perdeu o controle do transporte.

Em meio a escuridão e ao forte temporal, o acidente calou os nossos medos. O meu corpo doía, doía mais do que o meu arrependimento em tê-lo revelado a aparição da guria naquele escuro fim de tarde. Por vários minutos tudo se calou, o barulho da chuva caindo sobre os destroços do zarco foi a única coisa que eu conseguia ouvir. Eu sabia que o mau pressentimento não era loucura minha, a guriazinha da estradinha do horror trouxe má sorte a todos os que não acreditaram em sua real ou utópica existência. Subitamente, acordei. Molhado e com frio. Alguém gritava por socorro. Os berros vinham de longe, ao me levantar em meio a ruína que o ônibus havia se tornado, percebi que uma dupla de amigos gritavam da beira da estrada por alguém entre nós que ainda pudesse estar vivo. Imediatamente procurei por Brendon. Confesso que tive o maior medo da minha vida quando pensei no pior. Perdê-lo naquele ponto de toda a minha tímida e frustrada trajetória de vida, seria certamente a pior coisa. Por sorte ou destino, ele estava bem. Levantava-se no outro canto do resto dos bancos reinando sobre o acontecido. A primeira coisa que viu quando olhou para frente, foi eu. Sentiu-se seguro mas desesperou-se ao ver três mortos próximos de si. Não era possível ver quase nada ao redor. A claridade do farol do carro na pista nos ajudou nos passos seguintes. Subimos a curta inclinação em que o zarco descera e finalmente, antes que chegássemos à beira da rodovia, ambos os rapazes que gritavam, nos ajudaram a terminar o percurso até a extremidade da estrada. A cena era terrível. Se éramos poucos antes do ocorrido, nos tornamos quase nada após. Além de nós, saíram daquele episódio somente mais três sobreviventes. Duas mulheres e um homem.

Em poucas horas uma ambulância chegava ao local. Fomos levados ao Centro de Atendimento Médico Rodolfo César Bruntz localizado em Caçador. Daquela vez, entramos no município de uma maneira que jamais imaginaríamos em toda a nossa existência. Afinal, por qual motivo aquela pequena guria estava se manifestando para Brendon e eu daquela maneira? E por que todos os que não acreditaram em sua aparição na estrada acabaram mortos após o acidente?

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2 comentários:

  1. Olá Léo, parabéns pelo livro, está ficando ótimo, desde quando comecei a ler o primeiro livro eu sabia que ele precisaria ter uma continuação pois a narrativa é muito boa. Este novo projeto promete hein? sendo assim, por favor, não demore a escreve-lo, não me aguento de ansiedade de saber o que mais pode acontecer.

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  2. Oi Léo, parabéns pelo livro. Não li o primeiro ainda, porém esses capítulos já me dão uma breve sensação de como a história é e será fantástica. Quero muito esses livros. Bjs

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd